18.2.08
a balada de john franklin.
UM

Na Primavera de mil oitocentos e cinquenta, um grupo de caçadores inuítes cruza-se com cerca de quarenta homens brancos que rumam para sul pela paisagem gelada. Os inuítes alimentam-nos com pedaços de carne de foca em troca de vários utensílios. Ficam a saber que os navios dos brancos tinham encalhado e que não podiam navegar mais. Todos acampam juntos e os inuítes explicam aos brancos para onde ir. No dia seguinte, seguem o seu rumo.
Quatro anos depois, quarenta homens ainda caminhavam à deriva na branca paisagem. Sem mapas, sem comida, sem nada. À deriva, para sul.



HMS Erebus e HMS Terror © DR

DOIS

Os navios chamavam-se Erebus e Terror. Em mil oitocentos e quarenta e cinco, partiram de Greenhithe para Aberdeen e daí para a Gronelândia. O objectivo era, como quase todas as explorações que rumavam àqueles lados, encontrar a Passagem Noroeste. A vinte e seis de Julho de mil oitocentos e quarenta e cinco, cruzaram-se com o baleeiro Prince of Wales no canal de Lancaster. Nunca mais foram vistos. Durante anos, ninguém soube ao certo o que lhes aconteceu.



TRÊS

Sir John Franklin já era velho para tão frias andanças. Aos cinquenta e nove anos ninguém se aventura a descobrir a Passagem Noroeste. Para trás, duas viagens ao Árctico. Em mil oitocentos e dezanove, acabou a comer o couro das próprias botas. Em mil oitocentos e vinte e três, explorou com sucesso as costas do Mar de Beaufort. Em todas, Sir John Franklin nunca usou as roupas dos nativos inuítes. Há coisas que um almirante inglês nunca deve fazer. E uma delas é despir a sua farda. Sir John Franklin era um grande capitão. Querido por todos os seus cento e vinte e oito homens.



A chefia da expedição de Franklin, a partir de daguerreótipos desenhados pela Companhia Gleason's Pictorial Drawing-Room.

QUATRO

Um ano depois da partida, os gelos de Setembro cercam e esmagam o Erebus e o Terror na costa noroeste da ilha de King William. A tripulação ali fica, presa e sem saber para onde caminhar, à espera, à espera, à espera.


CINCO

Na segunda feira, vinte e quatro de Maio de mil oitocentos e quarenta e sete, alguns elementos da tripulação exploraram a ilha de King William. Debaixo de um amontoado de pedras deixaram uma carta descrevendo a localização dos navios e terminando com um encorajador “all well”. Todos tinham o degelo por próximo. Todos criam que os navios iam voltar a navegar. Duas semanas depois, Sir John Franklin morreu.




SEIS

Passa-se quase um ano e a tripulação do Erebus e do Terror regressa àquele preciso lugar. Nas margens da mesma carta, o Capitão Fitzjames acrescenta “estando o Erebus e o Terror imobilizados pelo gelo desde 12 de Setembro de 1846, a tripulação, composta por 105 almas sob o comando do capitão F. M. R. Crozier, decidiu abandonar os navios a 22 de Abril de 1848”, depois de esperar quase dois anos pela sua libertação. A adenda, datada de vinte e cinco de Abril de mil oitocentos e quarenta e oito, assinala a morte de John Franklin e refere que o destino destes homens é tentar marchar até à foz do Rio Great Fish. A partida está marcada para o dia seguinte.




Jane Griffin, depois Lady Franklin

SETE

Em mil oitocentos e cinquenta e cinco, Lady Jane Franklin tinha gasto toda a sua fortuna à procura do marido. Durante nove anos financiou quatro expedições de busca e ofereceu recompensas a quem lhe pudesse traçar o destino da expedição de John Franklin. Diz-se até que escreveu a letra da canção do mar que tomou o nome da sua mágoa: Lady Franklin’s Lament.

“We were homeward bound one night on the deep
Swinging in my hammock I fell asleep
I dreamed a dream and I thought it true
Concerning Franklin and his gallant crew

With a hundred seamen he sailed away
To the frozen ocean in the month of May
To seek a passage around the pole
Where we poor sailors do sometimes go.

Through cruel hardships they vainly strove
Their ships on mountains of ice were drove
Only the Eskimo with his skin canoe
Was the only one that ever came through

In Baffin's Bay where the whale fish blow
The fate of Franklin no man may know
The fate of Franklin no tongue can tell
Lord Franklin with his sailors do dwell

And now my burden it gives me pain
For my long-lost Franklin I would cross the main
Ten thousand pounds I would freely give
To know on earth, that my Franklin do live.”






OITO

Na primavera de mil oitocentos e cinquenta e quatro, o médico e explorador escocês John Rae está ao serviço da Hudson Bay Company a explorar as costas da Península de Boothia. Rae é um explorador intrépido, que se faz rodear de inuítes, aprendeendendo os seus modos de vestir, de caçar, de comer e de construir. Num dos seus relatórios, pode ler-se:
“Conheci um esquimó muito inteligente e comunicativo que me disse ser a primeira vez que encontrava um branco, mas que sabia que entre trinta e cinco e quarenta kabloonas* tinham morrido à fome a oeste de um rio a vinte dias de viagem”.
Rae caminha então para oeste, à procura destes homens. Na viagem, encontra uma família de inuítes que lhe mostra vários objectos retirados dos despojos dos kabloonas: pratos de prata, bússulas, talheres e bisturis. Em todos os objectos, eram visíveis as seguintes inscrições: Sir John Franklin, F.R.M.C., HMS Terror e HMS Erebus.

* palavra inuíte para homem branco.




Os despojos encontrados por John Rae, num desenho do Illustrated London News de 4 de Novembro de 1854.


NOVE

No relatório de Rae consta a seguinte entrada:
“Dado o tipo de mutilações infligidas a muitos dos corpos (...) é evidente que os nossos malogrados compatriotas foram forçados à mais pavorosa alternativa no que concerne a manter a vida”.


DEZ

Nunca! Nunca os marinheiros da Royal Navy recorreriam ao canibalismo, dizia-se numa Inglaterra vitoriana quando o escocês John Rae regressou com estes factos para contar. A honra da expedição não podia acabar assim. As informações de Rae não podiam ser verdade, não podiam singrar, não podiam ser credíveis. Custasse o que custasse. Lady Franklin mandou chamar o escritor Charles Dickens.


ONZE

The Lost Arctic Voyagers foi o título de um opúsculo escrito por Charles Dickens e publicado em duas partes no semanário Household Words, em Dezembro de mil oitocentos e cinquenta e quatro. Nele está escrito:
“as informações que os esquimós deram a Rae são inacreditáveis, dada a natureza pouco credível desse povo”, e “é extremamente improvável que tais homens recorressem ou tentassem recorrer, fosse qual fosse o extremo da sua fome, a tão horríveis meios”.
Mais à frente:
“estes tristes despojos da expedição de Franklin talvez até tenham sido ultrajados e massacrados pelos próprios esquimós. É que é impossível traçar o carácter de qualquer raça de selvagens atendendo ao seu comportamento tão diferenciado dos fortes brancos”.
E ainda:
“a palavra de um selvagem não pode ser tida em conta como tal. Em primeiro porque ele é um mentiroso, em segundo porque é alarde, em terceiro porque é dado a figurações.”
De nada valeu a defesa dos inúites na resposta de Rae. Todos queriam provas, mais provas. Um corpo, papeis, mais corpos.



A descoberta da carta e dos despojos da expedição por Francis McClintock num desenho do Illustrated London News de 15 de Outubro de 1859


DOZE

Só em mil oitocentos e cinquenta e nove, noutra expedição financiada por Lady Jane Franklin é que Francis Leopold McClintock encontraria a prova necessária para traçar de vez o destino da expedição de Franklin: a cinco de Maio, ao ancorar na ilha de King William, encontrou uma carta com notas nas margens, assinada pelo Capitão Fitzjames. Estava terminada a balada de John Franklin.


TREZE

Graças à viagem de Franklin e às expedições em sua busca, foram feitos avanços fundamentais para a descoberta da Passagem Noroeste. No epitáfio de John Franklin, escrito por Alfred, Lord Tennyson, lê-se:

"Not here! the white North has thy bones, and thou
Heroic sailor-soul
Art passing on thine happier voyage now
Toward no earthly pole."




Túmulos dos cinco membros da tripulação de Franklin, Beechey Island. © Ansgar Walk


A Balada de John Franklin, em treze pequenas partes, foi escrita com o apoio e inspiração da seguinte bibliografia:
Fatal Passage, de Ken McGoogan, Ed. Carroll & Graf Publishing, NY, 2002.
Franklin In The Public Eye, de Russel Potter.

 
posted by Eduardo Brito at 21:59 | Permalink |


0 Comments:


eXTReMe Tracker