24.2.08
gjøa haven: o porto mais bonito.
Gjøa Haven vista do céu.
© Ressources naturelles Canada

Quando tentava a primeira travessia da Passagem Noroeste, Roald Amundsen ancorou o seu navio Gjøa, num porto natural no sudeste da Ilha de King William a sessenta e oito graus, trinta e sete minutos e cinquenta e seis segundos norte e a noventa e cinco graus, cinquenta e dois minutos e quatro seguntos oeste. Estávamos em Outubro de mil novecentos e três e os mares tinham começado a congelar. O Gjøa ali acabou por ficar quase dois anos, naquele lugar que Amundsen chamava de “o pequeno porto mais bonito do mundo”. E o lugar tomou-lhe o nome, o Porto de Gjøa. Durante esses dois anos, Amundsen viveu com os Netsilik e aprendeu a viajar, a alimentar-se e a vestir-se segundo os seus métodos. Aprendeu também que Gjøa Haven se chama Uqsuqtuuq: terra de imensa banha.
 
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o portão do inferno.
O Monte Domen, por Lilienskiold, 1698


"Na minha infância, a história da descoberta do portão do inferno era-me contada vezes e vezes sem conta:
dizem que
é neste para além do mundo chamado Finnmark que fica a entrada para o Inferno. Dizem também que é por isso que este lugar está cheio de bruxas. E que não raras vezes o próprio diabo anda à solta. (...) Lá para os idos de mil seiscentos e sessenta, trinta mulheres foram acusadas de feitiçaria. Dezanove acabaram mesmo queimadas na fogueira porque confessaram que tinham feito uma festa com o Diabo onde beberam, dançaram e celebraram até não poderem mais. E mais disseram até que a festa foi numa montanha chamada Domen e que ali mesmo existia uma entrada para um túnel que ia dar ao inferno."

Tryggve Thorstvedt, Memory of Arktos, Ed. Eutron Books, Ltd, 2007.
 
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arco de parry.
Arco de Parry
Fotografia: © Martina Wisotzki


© R. Greenler Rainbows, Halos and Glories;
Cambridge University Press, 1980


Oito de Abril de mil oitocentos e vinte. William Edward Parry está a invernar na ilha Melville, no árctico Canadiano. Nas suas observações diárias, constata que o sol lhe aparece com uma moldura feita de um halo brilhante. Parry desenha o que vê. E o que vê recebe o nome de Arco de Parry: uma ilusão óptica causada pela refracção de raios solares por cristais de gelo que flutuam com os seus eixos de simetria na horizontal.
 
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a imagem do círculo (7): barthélemy lauvergne.
Barthélemy Lauvergne: Fra Smeerenburg-fjorden, 1839
© Nordnorsk Kunstmuseum



Entre mil oitocentos e trinta e oito e mil oitocentos e quarenta, cientistas, artistas e marinheiros deram corpo à expedição La Recherche. Durante dois anos, visitaram o norte da Noruega, as ilhas Faroe, Svalbard e a península de Kola. Barthelémy Lauvergne (mil oitocentos e cinco, mil oitocentos e setenta e um) foi um dos artistas que embarcou nesta viagem ao Círculo Polar. Em Svalbard, pintou este fiorde de Smeerenburg.
 
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postais do círculo do urso - 17 - honningsvåg, noruega.

Honningsvåg, Noruega, céu de inverno a 70° 58' N.
Fotografia: © Janter
 
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ciclo de filmes do círculo: ice station zebra.

Ice Station Zebra: John Sturges, EUA, 1968, 148 minutos.
 
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21.2.08
fantásticos espaços do círculo: pólo norte autêntico
Segundo Adam Jeffson, que ali chegou a 13 de Abril de certo ano, para lá do Círculo Árctico vêem-se, dispersos no gelo, pedaços de rocha ou minerais ferruginosos com incrustações de pedras preciosas. Jeffson supõe que tais pedras são meteoritos atraídos àquele lugar por força do magnetismo polar. Aparentemente, o frio impediria que ardessem quando cruzassem a nossa atmosfera. Outras razões invocadas para justificar a sua presença naquele ponto do globo foram uma força da gravidade muito mais forte e uma densidade atmosférica mais baixa em toda a região que explicaria, também, o achatamento da Terra.
O Pólo Norte Autêntico está ocupado por um lago perfeitamente circular, de quase uma milha de diâmetro, em cujo centro se ergue uma coluna de gelo baixa e maciça que contém, segundo Jeffson, um nome escrito com letras que nenhum homem poderá jamais ler e, debaixo do nome, uma data. Jeffson crê que com o líquido que gira de este a oeste em torno da coluna numa espécie de êxtase trémulo e acompanhado por um lânguido rumor de alas e cascadas, gira todo o planeta. Sugere que tal líquido é o alimento de um ser vivo, de muitos olhos, indolente e triste, que dá voltas em círculo para toda a eternidade numa cavidade subterrânea e vibrante, mantendo os seus olhos constantemente cravados no nome a na data descritos.
Jeffson chegou ao Pólo Norte sozinho, depois de passar por vicissitudes terríveis, que o fizeram perder todos os seus companheiros de viagem. As crónicas da descoberta de outro Pólo Norte, por parte de dois exploradores norte americanos, o Dr Frederick Albert Cook (1865-1940) e o contra-almirante Robert Edwin Peary (1856-1920), não são mais que ficções.
(Matthew Phipps Shiel, in The Purple Cloud, NYC, 1901)

in Breve Guía de Lugares Imaginarios, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi, Ed. Gran Bolsillo, Alianza Editorial, 1980, página 480.
 
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18.2.08
a balada de john franklin.
UM

Na Primavera de mil oitocentos e cinquenta, um grupo de caçadores inuítes cruza-se com cerca de quarenta homens brancos que rumam para sul pela paisagem gelada. Os inuítes alimentam-nos com pedaços de carne de foca em troca de vários utensílios. Ficam a saber que os navios dos brancos tinham encalhado e que não podiam navegar mais. Todos acampam juntos e os inuítes explicam aos brancos para onde ir. No dia seguinte, seguem o seu rumo.
Quatro anos depois, quarenta homens ainda caminhavam à deriva na branca paisagem. Sem mapas, sem comida, sem nada. À deriva, para sul.



HMS Erebus e HMS Terror © DR

DOIS

Os navios chamavam-se Erebus e Terror. Em mil oitocentos e quarenta e cinco, partiram de Greenhithe para Aberdeen e daí para a Gronelândia. O objectivo era, como quase todas as explorações que rumavam àqueles lados, encontrar a Passagem Noroeste. A vinte e seis de Julho de mil oitocentos e quarenta e cinco, cruzaram-se com o baleeiro Prince of Wales no canal de Lancaster. Nunca mais foram vistos. Durante anos, ninguém soube ao certo o que lhes aconteceu.



TRÊS

Sir John Franklin já era velho para tão frias andanças. Aos cinquenta e nove anos ninguém se aventura a descobrir a Passagem Noroeste. Para trás, duas viagens ao Árctico. Em mil oitocentos e dezanove, acabou a comer o couro das próprias botas. Em mil oitocentos e vinte e três, explorou com sucesso as costas do Mar de Beaufort. Em todas, Sir John Franklin nunca usou as roupas dos nativos inuítes. Há coisas que um almirante inglês nunca deve fazer. E uma delas é despir a sua farda. Sir John Franklin era um grande capitão. Querido por todos os seus cento e vinte e oito homens.



A chefia da expedição de Franklin, a partir de daguerreótipos desenhados pela Companhia Gleason's Pictorial Drawing-Room.

QUATRO

Um ano depois da partida, os gelos de Setembro cercam e esmagam o Erebus e o Terror na costa noroeste da ilha de King William. A tripulação ali fica, presa e sem saber para onde caminhar, à espera, à espera, à espera.


CINCO

Na segunda feira, vinte e quatro de Maio de mil oitocentos e quarenta e sete, alguns elementos da tripulação exploraram a ilha de King William. Debaixo de um amontoado de pedras deixaram uma carta descrevendo a localização dos navios e terminando com um encorajador “all well”. Todos tinham o degelo por próximo. Todos criam que os navios iam voltar a navegar. Duas semanas depois, Sir John Franklin morreu.




SEIS

Passa-se quase um ano e a tripulação do Erebus e do Terror regressa àquele preciso lugar. Nas margens da mesma carta, o Capitão Fitzjames acrescenta “estando o Erebus e o Terror imobilizados pelo gelo desde 12 de Setembro de 1846, a tripulação, composta por 105 almas sob o comando do capitão F. M. R. Crozier, decidiu abandonar os navios a 22 de Abril de 1848”, depois de esperar quase dois anos pela sua libertação. A adenda, datada de vinte e cinco de Abril de mil oitocentos e quarenta e oito, assinala a morte de John Franklin e refere que o destino destes homens é tentar marchar até à foz do Rio Great Fish. A partida está marcada para o dia seguinte.




Jane Griffin, depois Lady Franklin

SETE

Em mil oitocentos e cinquenta e cinco, Lady Jane Franklin tinha gasto toda a sua fortuna à procura do marido. Durante nove anos financiou quatro expedições de busca e ofereceu recompensas a quem lhe pudesse traçar o destino da expedição de John Franklin. Diz-se até que escreveu a letra da canção do mar que tomou o nome da sua mágoa: Lady Franklin’s Lament.

“We were homeward bound one night on the deep
Swinging in my hammock I fell asleep
I dreamed a dream and I thought it true
Concerning Franklin and his gallant crew

With a hundred seamen he sailed away
To the frozen ocean in the month of May
To seek a passage around the pole
Where we poor sailors do sometimes go.

Through cruel hardships they vainly strove
Their ships on mountains of ice were drove
Only the Eskimo with his skin canoe
Was the only one that ever came through

In Baffin's Bay where the whale fish blow
The fate of Franklin no man may know
The fate of Franklin no tongue can tell
Lord Franklin with his sailors do dwell

And now my burden it gives me pain
For my long-lost Franklin I would cross the main
Ten thousand pounds I would freely give
To know on earth, that my Franklin do live.”






OITO

Na primavera de mil oitocentos e cinquenta e quatro, o médico e explorador escocês John Rae está ao serviço da Hudson Bay Company a explorar as costas da Península de Boothia. Rae é um explorador intrépido, que se faz rodear de inuítes, aprendeendendo os seus modos de vestir, de caçar, de comer e de construir. Num dos seus relatórios, pode ler-se:
“Conheci um esquimó muito inteligente e comunicativo que me disse ser a primeira vez que encontrava um branco, mas que sabia que entre trinta e cinco e quarenta kabloonas* tinham morrido à fome a oeste de um rio a vinte dias de viagem”.
Rae caminha então para oeste, à procura destes homens. Na viagem, encontra uma família de inuítes que lhe mostra vários objectos retirados dos despojos dos kabloonas: pratos de prata, bússulas, talheres e bisturis. Em todos os objectos, eram visíveis as seguintes inscrições: Sir John Franklin, F.R.M.C., HMS Terror e HMS Erebus.

* palavra inuíte para homem branco.




Os despojos encontrados por John Rae, num desenho do Illustrated London News de 4 de Novembro de 1854.


NOVE

No relatório de Rae consta a seguinte entrada:
“Dado o tipo de mutilações infligidas a muitos dos corpos (...) é evidente que os nossos malogrados compatriotas foram forçados à mais pavorosa alternativa no que concerne a manter a vida”.


DEZ

Nunca! Nunca os marinheiros da Royal Navy recorreriam ao canibalismo, dizia-se numa Inglaterra vitoriana quando o escocês John Rae regressou com estes factos para contar. A honra da expedição não podia acabar assim. As informações de Rae não podiam ser verdade, não podiam singrar, não podiam ser credíveis. Custasse o que custasse. Lady Franklin mandou chamar o escritor Charles Dickens.


ONZE

The Lost Arctic Voyagers foi o título de um opúsculo escrito por Charles Dickens e publicado em duas partes no semanário Household Words, em Dezembro de mil oitocentos e cinquenta e quatro. Nele está escrito:
“as informações que os esquimós deram a Rae são inacreditáveis, dada a natureza pouco credível desse povo”, e “é extremamente improvável que tais homens recorressem ou tentassem recorrer, fosse qual fosse o extremo da sua fome, a tão horríveis meios”.
Mais à frente:
“estes tristes despojos da expedição de Franklin talvez até tenham sido ultrajados e massacrados pelos próprios esquimós. É que é impossível traçar o carácter de qualquer raça de selvagens atendendo ao seu comportamento tão diferenciado dos fortes brancos”.
E ainda:
“a palavra de um selvagem não pode ser tida em conta como tal. Em primeiro porque ele é um mentiroso, em segundo porque é alarde, em terceiro porque é dado a figurações.”
De nada valeu a defesa dos inúites na resposta de Rae. Todos queriam provas, mais provas. Um corpo, papeis, mais corpos.



A descoberta da carta e dos despojos da expedição por Francis McClintock num desenho do Illustrated London News de 15 de Outubro de 1859


DOZE

Só em mil oitocentos e cinquenta e nove, noutra expedição financiada por Lady Jane Franklin é que Francis Leopold McClintock encontraria a prova necessária para traçar de vez o destino da expedição de Franklin: a cinco de Maio, ao ancorar na ilha de King William, encontrou uma carta com notas nas margens, assinada pelo Capitão Fitzjames. Estava terminada a balada de John Franklin.


TREZE

Graças à viagem de Franklin e às expedições em sua busca, foram feitos avanços fundamentais para a descoberta da Passagem Noroeste. No epitáfio de John Franklin, escrito por Alfred, Lord Tennyson, lê-se:

"Not here! the white North has thy bones, and thou
Heroic sailor-soul
Art passing on thine happier voyage now
Toward no earthly pole."




Túmulos dos cinco membros da tripulação de Franklin, Beechey Island. © Ansgar Walk


A Balada de John Franklin, em treze pequenas partes, foi escrita com o apoio e inspiração da seguinte bibliografia:
Fatal Passage, de Ken McGoogan, Ed. Carroll & Graf Publishing, NY, 2002.
Franklin In The Public Eye, de Russel Potter.

 
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16.2.08
e então, o silêncio
O viajante parte à procura de Tule, a última. Segue os ensinamentos de Piteias, colhidos na Biblioteca Histórica de Diodoro Sículo. Das ilhas Orkney, navega seis dias e seis noites para Norte. Passa o Círculo do Urso mas não encontra nem cidade, nem reino. Chega ao fim do mar. À sua frente, a vastidão dos brancos desertos de gelo. Já não há dias e já não há noites. O viajante deixa, então, de sentir o tempo. E exausto, diz praeter solitudinem, nihil video.


15 de Fevereiro de 2007.
 
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15.2.08
ano um.
O Polaris faz hoje um ano. Para assinalar a data, um cabeçalho renovado, usando, no "o" de Polaris, a região polar tal como representada no mapa Septentrionalium Terrarum Descriptio de Gerhard Mecator (mil quinhentos e noventa e cinco). O assinalar deste primeiro aniversário estender-se-á durante a semana com a publicação de novos posts em cada uma das nove secções deste espaço, a saber, histórias, viagens e exploradores, da natureza do círculo, lugares, postais do círculo do urso, imagem do círculo, filmes do círculo e fantásticos espaços do círculo. Para começar, republica-se o texto do começo, há um ano atrás.
 
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11.2.08
fantásticos espaços do círculo: reino do pólo norte
Primeira edição de Le Peuple du Pôle, datada de 1907.

País situado debaixo do Círculo Polar Árctico e habitado por dinossauros civilizados. É um labirinto de túneis subterrâneos com várias saídas para os desertos gelados. A sociedade dos dinossauros está muito bem organizada e todos os seus membros se ocupam de tarefas específicas; a mais importante é vigiar umas enormes máquinas que transformam a energia electromagnética do Pólo Norte em calor e luz. Jovens aprendizes acompanham os operários encarregados da vigilância: se um operário demonstra negligência, vai parar ao matadouro e o aprendiz ocupa o seu lugar. Os dinossauros vão vestidos com uma peles de foca, têm cara de lagarto gigante e não deixam transparecer as suas emoções.
Uma teoria defende que estas criaturas descendem dos dinossauros pré-históricos que, no passado, se refugiaram debaixo da terra. Um explorador francês, cujo acompanhante enlouqueceu, escreveu uma crónica do Reino do Pólo Norte que foi encontrada nos finais do século XIX por uns arqueólogos franceses no norte da Sibéria. O manuscrito foi encontrado num tanque de petróleo vazio junto ao esqueleto de um dinossauro, presumivelmente e um dos habitantes desse reino branco e gelado.
(Charles Derennes, in Le Peulpe du Pôle, Paris, 1907)

in Breve Guía de Lugares Imaginarios, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi, Ed. Gran Bolsillo, Alianza Editorial, 1980, página 481.
 
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7.2.08
ciclo de filmes do círculo: kjærlighetens kjøtere
Kjærlighetens Kjøtere (Zero Kelvin): Hans Petter Moland, Noruega, 1995, 112 minutos.
 
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