18.7.07
a história de andrée - 5.
Salomon August Andrée, Knut Frænkel e Nils Strindberg.


...we shall continue our course to the east some time more, as long as there is as bit of sense in doing so...

Diário de Salomon August Andrée - 1 de Agosto de 1897.


Os dias que se seguem à aterragem do Örnen são de intenso trabalho de preparação da caminhada que se avizinha. Ainda assim, Strindberg tem tempo e inspiração para escrever algumas cartas à sua noiva Anna. Improvisa-se então um acampamento, calculam-se as correntes que empurram o gelo e decide-se que caminho seguir para regressar a casa. O melhor destino parece ser o Cabo Flora, nas ilhas de Franz Joseph, outrora abrigo de inverno de Fridjtof Nansen, ponto de passagem de vários baleeiros.
A dezassete de Julho de mil oitocentos e noventa e sete, Andrée abate o primeiro de muitos ursos polares que apareceriam no caminho e que se tornariam no principal mantimento dos três sobreviventes. Cinco dias depois, Andrée, Frænkel e Strinberg iniciam uma longa e penosa caminhada no gelo, arrastando pesados trenós com tendas, medicamentos, armas, mantimentos e tanta mais parafernália, rasgando caminho no gelo imperfeito, vencendo o silêncio do vento forte.
Os dias passam iguais, sempre tão iguais. Desmonta-se a tenda, caminha-se, ao fim de seis horas come-se, caminha-se mais duas horas, monta-se a tenda, come-se outra vez e descansa-se por fim. Assim. E sempre assim, dia após dia.
No final de um de Agosto, Strindberg ao calcular a localização da expedição apercebe-se que, por força das correntes, a expedição caminhou para trás seis quilómetros. E que pela mesma razão não consegue rumar a Este. É o primeiro duro golpe na confiança dos três caminhantes. Os planos invertem-se rapidamente e o destino passa a ser qualquer uma das Sete Ilhas, a norte de Spitsbergen.
A treze de Agosto, a comida acaba. O desespero dura pouco: um miraculoso acaso faz com que a expedição se cruze com três ursos polares, imediatamente abatidos e transformados em provisões. Depois, segue-se caminho e mais caminho, cansaço e mais cansaço. E cada vez mais frio: o inverno está a chegar. Quinze dias após o início da caminhada, a temperatura desceu de zero para menos quatro graus centígrados. No fim de Agosto chega aos oito graus negativos. E o vento corta, agora.
Os pés doem, as mãos queimam: a um de Setembro, todos acordam demasiado cansados e decidem nem sequer dar um passo. O dia é passado a remendar equipamentos, a descansar e a procurar novas forças para sobreviver. Três dias depois, Nils Strindberg cumpre o seu vigésimo quinto aniversário, assinalado com um almoço festivo composto por carne de urso com pão, sopa de urso e bife de urso com banha de urso.
A quinze de Setembro de mil oitocentos e noventa e sete, os três peregrinos do gelo avistam terra, pela primeira vez desde onze de Julho. Os noruegueses chamam-lhe Kvitøya, os ingleses White Island ou Gilles Island e os suecos Vitön: uma ilha branca onde o gelo pouco mais mostra que o cume de uma ou outra montanha. Em três dias dirigem-se para sul, contornando a costa gelada. É aí, com terra à vista que decidem invernar: os mantimentos, enlatados e caçados, são suficientes para muitos meses e o acampamento de inverno é erguido em poucos dias. Porém, na noite de dois de Outubro, o gelo quebra-se em pequenos pedaços e o acampamento desfaz-se e espalha-se. É um duro golpe, também. Mas ninguém perde a coragem.
Andrée, Strindberg e Frænkel, exaustos, doridos, com diarreias, cegueira da neve, dores de estômago, pés partidos, cãibras e profundamente desanimados, entram na terra gelada de Vitön a cinco de Outubro de mil oitocentos e noventa e sete.
Knut Frænkel menciona uma excelente situação a quatro e a cinco de Outubro. A dezassete, uma entrada no diário de Strindberg diz Home 7.05 am. E depois, o imenso silêncio.



A rota de Andrée, Frænkel e
Strindberg: em balão, a traço contínuo e a pé, a traço descontínuo. [Carregar na imagem para ampliar]
 
posted by Eduardo Brito at 19:02 | Permalink |


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