20.6.07
invernar.
No fim do Verão, é forçoso parar. Vêm aí as longas noites polares, feitas de escuridão azul, de tempestades de gelo, de luares aterradores. Gelam-se os mares e os barcos não navegam mais. Erguem-se no gelo, estalam com a pressão ou unicamente ali ficam, presos. Então, os viajantes invernam: escolhem um abrigado porto, protegido dos ventos, e esperam. Esperam que o tempo passe. Dormem. Caçam. Estudam. Esperam mais. Muitas vezes, o recomeço da viagem acontece em Junho, quando o derreter dos gelos permite que o mar reapareça na paisagem branca. Para trás estão nove longos e penosos meses de noite, de desespero, de fome, de frio e de morte. Como passa o tempo e a vida pela longa noite polar?



Levinus Hulsius: "The Exact Manner Of The House Wherein We Wintered" in De Veer Narrative, 1609.


William Barents foi o primeiro explorador a invernar com sucesso no Árctico. Aconteceu por acaso, nos finais de Agosto de mil quinhentos e noventa e seis, na sua terceira viagem aos mares frios. No regresso de Spitsbergen, a frota do holandês fica presa no gelo em Nova Zemlya, num lugar a que chamaram Ice Haven. Aí construiram uma casa de madeira para onde transportaram tudo o que tinham nos navios: ferramentas, utensílios, instrumentos, livros, roupas e um relógio. Durante dez meses, lá permaneceram ao frio, à fome e à noite, à espera do passar do tempo, interrompidos apenas pela presença de ursos polares. Para se entreterem, iam celebrando efemérides: o dia de reis foi assinalado com panquecas e biscoitos e vinho, fingindo que estávamos o nosso país, entre nossos amigos, o que nos confortou tantoa quanto se tivéssemos feito um banquete nas nossas próprias casas *. O armeiro da frota foi mesmo eleito o rei de Nova Zemlya. Assim passaram os dias e os meses. Assim se viu, pela primeira vez, o sol rectângulo. Em Junho de mil quinhentos e noventa e sete, Barents e a sua frota regressaram a casa, deixando ao gelo e ao tempo a primeira casa de inverno polar. (Encontrada, intacta, duzentos e oitenta e cinco anos depois pelo norueguês Elling Carlsen. Lá dentro, em perfeito estado de conservação, as ferramentas, utensílios, instrumentos, livros, roupas e o relógio).


Em mil seiscentos e trinta e um, duas frotas holandesas decidem invernar em Jan Mayen e em Smeerenburg. Se a primeira encarou o inverno temendo a Deus, rezando e dormindo, a segunda, também o fazendo, decidiu não se ficar por aí. Para entretenimento dos seus homens, organizaram-se caçadas a ursos, banquetes de carne fresca. Chegou mesmo a fazer-se o Carnaval de Spitsbergen. Com a chegada do dia polar, a comitiva de Spitsbergen fez-se às águas e regressou a casa. Em Jan Mayen, a morte assolou o inverno da comitiva. Ninguém sobreviveu e Jan Mayen tornou-se terra assolada pela passagem do diabo.



Fac-símile da primeira página da North Georgia Gazette de seis de Março de mil oitocentos e vinte, publicada em Journal Of A Voyage For The Discovery Of The N.W. Passage In 1819-1820, de Edward Parry.


Os invernos polares sucedem-se, entre sucessos e fracassos. Deuses e diabos ficam de fora quando se fala de invernar no círculo do urso. É necessário não sentir o tempo passar enquanto o tempo passa. Assim pensava Edward Parry quando, nos primeiros dias de mil oitocentos e dezanove, chegou a Melville Island. O avanço do frio e do gelo fê-lo procurar abrigo e ancorou num pequeno porto a que chamou de Winter Harbour. Para que os seus homens aproveitassem o convés para fazerem exercício, Parry mandou cobrir os seus navios, Hecla e Gripper, fazendo deles duas enormes tendas. Todos os dias, fazia-se pão e o fabrico de cerveja só era interrompido pelo extremo frio. Criou-se também uma escola, onde se ensinava a ler e a escrever inglês. O Capitão Sabine tornou-se no chefe de redacção do semanário North Georgia Gazette & Winter Chronicle. O Natal foi celebrado com a apresentação de uma operetta denominada de Northwest Passage. E assim passou o tempo: sem se dar por ele. Em Julho de mil oitocentos e vinte, a comitiva de Parry estava pronta para continuar as suas explorações.

O ofício de invernar no Círculo do Urso estava, finalmente, compreendido pelo Homem.







* tradução livre do escrito em The Three Voyages Of William Barents to the Arctic Regions (1594, 1595, 1596), de Gerrit de Veer, Ed. Elibron Classics, 2005 (fac-símile da edição de 1876 da Hakluyt Society).
 
posted by Eduardo Brito at 15:09 | Permalink |


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