28.6.07
as três cartas.
A carta de Barents, escrita em mil quinhentos e noventa e sete e encontrada na casa de Ice Haven, em mil oitocentos e setenta e um, por Elling Carlsen. Actualmente, encontra-se no Rijksmuseum de Amsterdão.


Em Junho de mil quinhentos e noventa e sete a frota de Willem Barents está pronta para partir de Ice Haven, Nova Zemlya, rumo a casa. O grande navegador escreve três cartas onde conta: como ali chegou vindo da Holanda, rumo ao reino da China, o que aconteceu à sua frota para ter de invernar ali durante dez meses, tendo que construir, em extremas condições de pobreza e miséria, uma casa de madeira, e como agora tinha finalmente chegada a hora de partir para casa, em dois pequenos batéis, perdido que estava o navio onde vieram *. Uma das cartas é colocada na chaminé da casa, cada uma das outras vai em cada um dos batéis. Treze de Junho. A água está aberta. Os pequenos barcos partem. Dezasseis de Junho. Barents diz a de Veer: Gerrit, estamos no Cabo de Gelo, levanta-me, tenho que vê-lo uma vez mais *.
Quatro dias depois, a caminho de casa, o grande explorador viveria a sua última hora, ali no mar que tomaria o nome seu.


Adaptado de The Three Voyages Of William Barents to the Arctic Regions(1594, 1595, 1596), de Gerrit de Veer, Ed. Elibron Classics, 2005 (fac-símile da edição de 1876 da Hakluyt Society).
 
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a imagem do círculo (5) - peder balke.
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Peder Balke: Stedtind i tåke, 1864. 71 x 58 cm, Galeria Nacional, Oslo, Noruega.

"I can't begin to describe how elated I was at having seen and re-tread the land, once again, after satisfying my deep longing to see the northern provinces. No easier is it for me to pen my thoughts on which sublime and mesmerizing impressions the wealth of natural beauty and unrivalled settings leave upon the mind of an observer. These impressions not only overwhelmed me for a brief moment, but they, too, influenced my entire future since I never yet, neither abroad nor other places in our country, have had the occasion to gaze at something so awe-inspiring and exciting as that which I observed during this journey to Finnmark. Unsurpassed in the northern provinces is the beauty of nature, while humans - nature's children - play but a minor role, in comparison."

Peder Balke (mil oitocentos e quatro - mil oitocentos e oitenta e sete) in Memoirs.
 
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22.6.07
fac-símile.
THE
T r u e a n d p e r f e c t D e -
scription of three Voy-
ages so strange and woonderfull,
that the like hath neuer been
heard of before:


Done and performed three times, one after the other, by the Ships
of Holland and Zeland, on the North Sides of Norway, Muscouia and
Tartaria, towards the Kingdomes of Cathaia & China; shewing
the discouerie of the Straights of Weigates, Noua Zembla,
and the Countrie lying vnder 80 degrees; wich is
thought to be Greenland: where neuer any man had
bin before: with the cruell Beares, and other
Monsters of the Sea, and the vnsupport-
able and extreame cold that is
found to be in those
places.

And how that in the last Voyage, the Shippe was so inclosed by
the Ice, that it was left there, whereby the men were forced to build a
house in the cold and desart Countrie of Noua Zembla, wherin
they continued 10. monthes togeather, and neuer saw nor
heard of any man, in most freat cold and extreame
miserie; and how after that, to saue their liues, they
were constrained to sayle aboue 560. Dutch
miles, which is aboue 1000. miles English,
in litle open Boates, along and ouer the
maine Seas, in most great daunger,
and with extreame labour, vn-
speackable troubles, and
great hunger.
_______________________________________________________________
_______________________________________________________________
Imprinted at London for T. Pauier.
1609.

As memórias das três viagens de Willem Barents às regiões árcticas foram escritas por Gerrit de Veer, tripulante (físico? carpinteiro? navegador?) da frota do navegador holandês. A primeira impressão, em neerlandês, data de mil quinhentos e noventa e oito. Nesse mesmo ano, foram também editadas versões em latim e em francês. Levinus Hulsius, o editor, traduziu a obra para alemão, redesenhou as chapas originais da edição neerlandesa e publicou estas memórias em Nuremberga, a dez de agosto de mil quinhentos e noventa e oito. Um ano depois, apareceu em Veneza, a edição italiana. Em mil seiscentos e nove surgiu esta edição na língua inglesa, que inclui as chapas desenhadas por Hulsius. Seria republicada, pela Hakluyt Society, em mil oitocentos e cinquenta e três e em mil oitocentos e setenta e seis. Desta última edição, a Elibron Classics publicou, em dois mil e cinco, uma edição fac-similada.
 
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20.6.07
invernar.
No fim do Verão, é forçoso parar. Vêm aí as longas noites polares, feitas de escuridão azul, de tempestades de gelo, de luares aterradores. Gelam-se os mares e os barcos não navegam mais. Erguem-se no gelo, estalam com a pressão ou unicamente ali ficam, presos. Então, os viajantes invernam: escolhem um abrigado porto, protegido dos ventos, e esperam. Esperam que o tempo passe. Dormem. Caçam. Estudam. Esperam mais. Muitas vezes, o recomeço da viagem acontece em Junho, quando o derreter dos gelos permite que o mar reapareça na paisagem branca. Para trás estão nove longos e penosos meses de noite, de desespero, de fome, de frio e de morte. Como passa o tempo e a vida pela longa noite polar?



Levinus Hulsius: "The Exact Manner Of The House Wherein We Wintered" in De Veer Narrative, 1609.


William Barents foi o primeiro explorador a invernar com sucesso no Árctico. Aconteceu por acaso, nos finais de Agosto de mil quinhentos e noventa e seis, na sua terceira viagem aos mares frios. No regresso de Spitsbergen, a frota do holandês fica presa no gelo em Nova Zemlya, num lugar a que chamaram Ice Haven. Aí construiram uma casa de madeira para onde transportaram tudo o que tinham nos navios: ferramentas, utensílios, instrumentos, livros, roupas e um relógio. Durante dez meses, lá permaneceram ao frio, à fome e à noite, à espera do passar do tempo, interrompidos apenas pela presença de ursos polares. Para se entreterem, iam celebrando efemérides: o dia de reis foi assinalado com panquecas e biscoitos e vinho, fingindo que estávamos o nosso país, entre nossos amigos, o que nos confortou tantoa quanto se tivéssemos feito um banquete nas nossas próprias casas *. O armeiro da frota foi mesmo eleito o rei de Nova Zemlya. Assim passaram os dias e os meses. Assim se viu, pela primeira vez, o sol rectângulo. Em Junho de mil quinhentos e noventa e sete, Barents e a sua frota regressaram a casa, deixando ao gelo e ao tempo a primeira casa de inverno polar. (Encontrada, intacta, duzentos e oitenta e cinco anos depois pelo norueguês Elling Carlsen. Lá dentro, em perfeito estado de conservação, as ferramentas, utensílios, instrumentos, livros, roupas e o relógio).


Em mil seiscentos e trinta e um, duas frotas holandesas decidem invernar em Jan Mayen e em Smeerenburg. Se a primeira encarou o inverno temendo a Deus, rezando e dormindo, a segunda, também o fazendo, decidiu não se ficar por aí. Para entretenimento dos seus homens, organizaram-se caçadas a ursos, banquetes de carne fresca. Chegou mesmo a fazer-se o Carnaval de Spitsbergen. Com a chegada do dia polar, a comitiva de Spitsbergen fez-se às águas e regressou a casa. Em Jan Mayen, a morte assolou o inverno da comitiva. Ninguém sobreviveu e Jan Mayen tornou-se terra assolada pela passagem do diabo.



Fac-símile da primeira página da North Georgia Gazette de seis de Março de mil oitocentos e vinte, publicada em Journal Of A Voyage For The Discovery Of The N.W. Passage In 1819-1820, de Edward Parry.


Os invernos polares sucedem-se, entre sucessos e fracassos. Deuses e diabos ficam de fora quando se fala de invernar no círculo do urso. É necessário não sentir o tempo passar enquanto o tempo passa. Assim pensava Edward Parry quando, nos primeiros dias de mil oitocentos e dezanove, chegou a Melville Island. O avanço do frio e do gelo fê-lo procurar abrigo e ancorou num pequeno porto a que chamou de Winter Harbour. Para que os seus homens aproveitassem o convés para fazerem exercício, Parry mandou cobrir os seus navios, Hecla e Gripper, fazendo deles duas enormes tendas. Todos os dias, fazia-se pão e o fabrico de cerveja só era interrompido pelo extremo frio. Criou-se também uma escola, onde se ensinava a ler e a escrever inglês. O Capitão Sabine tornou-se no chefe de redacção do semanário North Georgia Gazette & Winter Chronicle. O Natal foi celebrado com a apresentação de uma operetta denominada de Northwest Passage. E assim passou o tempo: sem se dar por ele. Em Julho de mil oitocentos e vinte, a comitiva de Parry estava pronta para continuar as suas explorações.

O ofício de invernar no Círculo do Urso estava, finalmente, compreendido pelo Homem.







* tradução livre do escrito em The Three Voyages Of William Barents to the Arctic Regions (1594, 1595, 1596), de Gerrit de Veer, Ed. Elibron Classics, 2005 (fac-símile da edição de 1876 da Hakluyt Society).
 
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13.6.07
malström.
Malström desenhado por Olaus Magnus, in Historia de Gentibus Septentrionalibus, 1555.


Isto podia explicar-se assim: e os mares gelados de Moskenes abrir-se-ão em poderosos remoinhos, mostrando a terra bem lá no seu fundo, engolindo barcos e homens, provando a ira dos deuses. Ou assim: malström é o nome dado a um conjunto de poderosas correntes e remoinhos estendidos, à tona da água, por vários quilómetros, na região norueguesa de Lofoten. Do temor à descoberta, de Piteias a Edgar Allan Poe: desde há dois mil anos que o mistério do malström fascina o homem que viaja pelo Norte.



Malström fotografado por Jérôme Cuny em 2003.
 
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8.6.07
fantásticos espaços do círculo: estreito de anian.
O Estreito de Anian, a nordeste da ilha da Califórnia, no mapa de Pieter Goos de 1668.


O Estreito de Anian aparece em mapas desde o século XVI. Dizem que a sua descoberta se ficou a dever ao castelhano Ferrer Maldonado. Segundo alguns relatos, este marinheiro partiu de Acapulco em mil quinhentos e oitenta e oito, numa tentativa de encontrar uma passagem nordeste entre o Pacífico e o Atlântico. No regresso, escreveu a “Relación del Descubrimiento del Estrecho de Anian en 1588,” cheia de descrições fantásticas que influenciaram inúmeras gerações de exploradores, marinheiros e cartógrafos até ao século XIX. Em mil setecentos e noventa e três, porém, William Goldson escreve "Observations on the Passage Between the Atlantic and Pacific Oceans, in Two Memoirs on the Straits of Anian, and the Discoveries of De Fonte. Elucidated by a New and Original Map. . . Portsmouth, 1793" e atribui a descoberta do Estreito de Anian a Juan de Fuca, nome pelo qual ficou conhecido Apostolos Valerianos, marinheiro grego ao serviço da armada espanhola. Segundo Goldson, De Fuca navegou para norte, desde a Califórnia, tendo atingido a latitude de quarenta e sete graus Norte . Aí encontrou um canal para nordeste. No fim do canal, uma enorme rocha assinalava o fim da terra e o começo de um largo mar, por onde De Fuca navegou durante vinte dias sem avistar terra, o que o fez concluir que estaria no Atlântico, tendo encontrado a passagem nordeste: precisamente através do Estreito de Anian.
 
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postais do círculo do urso - 7 - longyearbyen.
Longyearbyen, Svalbard, 1958. Autor desconhecido.
 
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postais do círculo do urso - 6 - tracy arm, alaska.
Fotografia do Comandante John Bortniak, tirada em 1991.
 
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