9.5.07
miragens do círculo.
Miragem Fada Morgana. Fotografia: © Ratzeputz


O viajante caminha sobre as águas. O oceano é um vasto tapete branco. Há silêncio, demasiado silêncio, dias e dias que passam sempre iguais. Caminha a olhar, sempre a olhar, sempre em busca de qualquer coisa, da mais pequenina mudança no branco-azul da paisagem. A vista cansa-se e deixa de ver, a vista vê tudo branco primeiro, tudo azul - será preto?- depois, tudo branco outra vez. Não há medidas, distâncias, perspectivas. Não há sombras. A paisagem é um enorme quadro branco sem fundo. Cada passo constrói o seguinte, até ao fim do caminho. É assim ao longo de todo o tempo: Fadas Morganas aparecem e mostram terras de sonhos. Cartografam-se brancas montanhas -fantásticos espaços!- e terras de nenhum lado. Arruinam-se reputações com a “distinta visão de terra que contorna a baía, formando uma serra de norte a sul”(1), sonhada por John Ross e por ele chamada de Serra Barnard. Formam-se expedições para explorar as imaginárias terras de Crocker, uma miragem de Robert Peary a noroeste do cabo Hubbard. E no fim, há apenas gelo e silêncio no olhar do viajante.


(1) Traduzido de John Ross, Voyage of Discovery in H.M. Ships Isabella and Alexander, Londres, 1819.
Inspiração: William Scoresby Jr - An Account of the Arctic Regions with a History and Description of the Northern Whale-Fishery, 1820.
 
posted by Eduardo Brito at 11:00 | Permalink |


2 Comments:


At 9 May 2007 at 23:48, Blogger Eduardo

Já ando há uma data de tempo para dizer alguma coisa mais... longa, mas uma vez que não consigo, fico-me só pelo "este blog[ue] é mesmo muito bom".

 

At 12 May 2007 at 23:16, Blogger EB

Muito obrigado, caro homónimo :)

 
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