31.5.07
postais do círculo do urso - 5 - franz joseph land.
Franz Joseph Land (80º05'37,49'' N 48º04'59.17" E) vista a dois mil quinhentos e vinte metros de altura. Fotografia de ecrã do Google Earth.
 
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28.5.07
a imagem do círculo (4) - franz wilhelm schiertz.
Franz Wilhelm Schiertz: Cenário de Norskøyene, Spitsbergen, 1879. 35 x 53 cm. Galeria Nacional, Oslo, Noruega.


Franz Wilhelm Schiertz nasceu em mil oitocentos e treze em Leipzig. Arquitecto e Pintor, foi discípulo de Johan Christian Clausen Dahl, um dos grandes paisagistas da escola de Dresden. Entre mil oitocentos e setenta e seis e mil oitocentos e setenta e oito, já numa fase avançada da sua vida, Schiertz largou a certeza dos seus dias em Bergen e alistou-se na expedição norueguesa aos mares do Norte como desenhador. Daí lhe chegou a memória e a inspiração para este Cenário de Norskøyene, de lá nos chegam estes cinco desenhos constantes das páginas quinhentos e trinta, quinhentos e trinta e um, quinhentos e trinta e dois, quinhentos e trinta e três e quinhentos e trinta e cinco do relatório da referida expedição, publicado em mil oitocentos e oitenta, precisamente sete anos antes de Franz Wilhelm Schiertz morrer.





 
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23.5.07
memória de arktos. (1)

Silence appeared a long time before language. Silence is the beginning of all things: hence the first instant of the first mouth-opening of the first living is silent. I am, somehow, returning to a sort of beginning. So, I would be a thief if I would - or if I could - speak a single world when admiring Spitsbergen's Körberbreen glacier.

Tryggve Thorstvedt, Memory of Arktos, Ed. Eutron Books, Ltd, 2007.
 
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19.5.07
o último vôo.
Felíx Rodriguez de la Fuente. Fotografia: © DR


No dia do seu quinquagésimo segundo aniversário, o naturalista Félix Rodríguez de la Fuente rodava no Alaska um documentário sobre a Iditarod, uma rota de mil e quinhentos quilómetros para trenós de cães. Antes de entrar no avião que o levaria para Nome, ponto final da rota, de la Fuente olhou a paisagem gelada e silenciosa durante alguns instantes.
Terá dito:
qué lugar más hermoso para morir.
Também se diz que nesse instante um corvo negro atravessou os céus dessa triste manhã do dia catorze de Março de mil novecentos e oitenta.
 
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18.5.07
breve história de uma história dos povos do norte.
Os povos do Norte estão expostos a noites de grande duração. Em consequência, usam vários tipos de luz para cumprirem os deveres indispensáveis dos seus lares. *


Esta é a breve história de um enorme livro chamado Historia de Gentibus Septentrionalibus, publicado em Roma no ano de mil quinhentos e cinquenta e cinco. São setecentos e setenta capítulos, ilustrados por quinhentas imagens, naquele que foi o maior retrato alguma vez feito aos usos e costumes dos povos do remoto Norte. Palavras e gravuras de tão extensa monografia têm a autoria de Olaus Magnus, o eclesiástico sueco, bispo de Upsalla, que foi também viajante, geógrafo, cartógrafo e diplomata.



No remoto Norte vive uma temível criatura tão grande como um elefante, chamada foca ou morsa, talvez assim chamada por causa de sua forte mordida . *


A história da Historia de Gentibus Septentrionalibus nasce com um mapa. Aliás, grande parte das páginas deste livro são análises detalhadas de um mapa, de o mapa: em mil quinhentos e trinta e nove, Magnus publica em Veneza a sua Carta Marina, uma detalhada descrição dos mares e dos reinos do Norte, cuja influência se estenderia até ao século XIX. Se a história da Historia de Gentibus Septentrionalibus nasce da Carta Marina, a história desta carta – e, reflexamente, do longo livro – nasce de uma viagem de dois anos que o autor fez até longínquo e desconhecido Norte - a terra incognita - lugar de adoradores de demónios, berço da guerra e reino do frio.




Nem mesmo a parte mais remota do Norte, que muitos crêem inabitável por causa de seu intenso frio, está livre de ritos sacrílegos e de devoção a espíritos malignos . *


Em mil quinhentos e dezoito, Magnus parte para a província de Norrland. Visita Trondheim e Övertorneå, estuda os estranhos usos e costumes das gentes que encontra, descreve e desenha o novo mundo que tem diante de si: um lugar branco, com dias e noites diferentes dos dias e das noites do resto do mundo, um lugar de mares misteriosos, que engolem navios inteiros com a força das suas correntes, um lugar de monstros de dentes horríveis e assustadores, mas de gente corajosa e forte, capaz de erguer uma fortaleza invencível. Desta viagem, Olaus Magnus concebe a Carta Marina. Partindo de uma e de outra, escreve, durante dezasseis anos, a monumental Historia de Gentibus Septentrionalibus.



* Gravuras de Olaus Magnus, extraídas, tal como o texto, de Historia de Gentibus Septentrionalibus.

 
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12.5.07
a imagem do círculo (3) - a luz do silêncio: as imagens de marc deneyer.
Marc Deneyer nasceu em Bruxelas, no ano de 1945. Hoje vive em França e ensina no Institut Supérieur de l'Image, em Poitiers. Escolheu Ilulissat, pequeno porto no oeste da Gronelândia, para estudar a pureza da luz e a escala de brancos e cinzas que só a paisagem polar feita de gelo e icebergues conseguem oferecem. Em Junho de mil novecentos e noventa e quatro, Deneyer fotografa o gelo que se desprende, derrete e navega ao sabor das correntes mais quentes. O resultado aparece em dois mil e um, sob o nome de "Ilulissat: Textes & Photographies", pela editora Le Temps Qu'il Fait. Aqui ficam doze amostras da luz forte e tranquila do silêncio, encontrada por Marc Deneyer.




Iceberg, Ilulissat, 1994, 1/12.




Iceberg, Ilulissat, 1994, 2/12.




Iceberg, Ilulissat, 1994, 3/12.




Iceberg, Ilulissat, 1994, 4/12.




Iceberg, Ilulissat, 1994, 5/12.




Iceberg, Ilulissat, 1994, 6/12.




Iceberg, Ilulissat, 1994, 7/12.




Iceberg, Ilulissat, 1994, 8/12.




Iceberg, Ilulissat, 1994, 9/12.




Iceberg, Ilulissat, 1994, 10/12.




Iceberg, Ilulissat, 1994, 11/12.




Iceberg, Ilulissat, 1994, 12/12.



© Marc Deneyer.
 
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ciclo de filmes do círculo: kрасная палатка (krasnaya palatka).
Krasnaya Palatka /A Tenda Vermelha: Mikheil Kalatozishvili, URSS/Itália, 1971, 128 minutos.
 
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9.5.07
miragens do círculo.
Miragem Fada Morgana. Fotografia: © Ratzeputz


O viajante caminha sobre as águas. O oceano é um vasto tapete branco. Há silêncio, demasiado silêncio, dias e dias que passam sempre iguais. Caminha a olhar, sempre a olhar, sempre em busca de qualquer coisa, da mais pequenina mudança no branco-azul da paisagem. A vista cansa-se e deixa de ver, a vista vê tudo branco primeiro, tudo azul - será preto?- depois, tudo branco outra vez. Não há medidas, distâncias, perspectivas. Não há sombras. A paisagem é um enorme quadro branco sem fundo. Cada passo constrói o seguinte, até ao fim do caminho. É assim ao longo de todo o tempo: Fadas Morganas aparecem e mostram terras de sonhos. Cartografam-se brancas montanhas -fantásticos espaços!- e terras de nenhum lado. Arruinam-se reputações com a “distinta visão de terra que contorna a baía, formando uma serra de norte a sul”(1), sonhada por John Ross e por ele chamada de Serra Barnard. Formam-se expedições para explorar as imaginárias terras de Crocker, uma miragem de Robert Peary a noroeste do cabo Hubbard. E no fim, há apenas gelo e silêncio no olhar do viajante.


(1) Traduzido de John Ross, Voyage of Discovery in H.M. Ships Isabella and Alexander, Londres, 1819.
Inspiração: William Scoresby Jr - An Account of the Arctic Regions with a History and Description of the Northern Whale-Fishery, 1820.
 
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7.5.07
postais do círculo do urso - 4 - mar de beaufort.
Mar de Beaufort, Primavera de 1949. Fotografia do Almirante Harley D. Nygren.
 
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qaanaq: o fim do último reino.
Os Inuítes têm o seguinte provérbio: As dádivas fazem os escravos como os chicotes fazem os cães.
Os Inuítes usaram este provérbio depos de terem visto os Amerlaquaat descer do céu e invadir o reino de Tule, sem sequer lhes declarar guerra, mergulhando-os em grandes movimentos de pânico, vendo-os construir de maneira inexplicável duas gigantescas bases militares no meio dos seus iglus, no centro da aurora.
A beleza de um provérbio antigo não lhes serviu de nada.
Os Inuítes descobriram como três milénios se apagam em dez anos.
Depois descobriram como o dinheiro exerce um domínio mais ardiloso que uma arma: porque tem todo o tempo que for preciso para ameaçar do fundo da alma valendo-se da sua dívida.

in As Sombras Errantes - Último Reino, de Pascal Quignard, Ed. Gótica, 2003, página 87.
 
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3.5.07
cемён ивaнович дежнёв.
Semyen Ivanovitch Dezhnev.


Entre os rios Kolyma e Anadyr nada se conhece. Ninguém sabe se a terra russa acaba, ninguém sabe se se une com o Alasca, fazendo da Eurásia e da América uma só terra. Noventa homens, divididos por sete kochis, esperaram nove meses pelo descongelar das águas da foz do Kolyma. Agora, chegou o momento. Estamos a vinte de Junho de mil seiscentos e quarenta e oito, na expedição ao remoto Nordeste russo dos cossacos Fyódor Alexeyev e Semyen Dezhnev, à procura da fortuna do marfim de morsa e da glória dos grandes descobridores. Sem bússulas e sem mapas, navegam para Leste acompanhando o desenho da costa. Passam-se dois meses e meio até a frota dobrar um cabo e começar a rumar a Sul. Pouco tempo resta antes da chegada dos gelos. A expedição atraca numa de duas pequenas ilhas, provavelmente para invernar, mas é atacada por inuítes. Os que sobrevivem, fogem para Sul. Numa tempestade, o koch de Alexeyev desaparece. Dezhnev atinge, por fim, um largo golfo e, dias mais tarde, a foz do rio Anadyr, por onde navega até encontrar um pequeno povoado. Ali permanece o cossaco e os seus dezoito homens até ao verão seguinte, regressando com fortuna feita até Yakutsk. É mandado seguir para Moscovo, para narrar as suas gloriosas descobertas à corte.

Na sua viagem à Europa Ocidental, nos últimos anos do século dezassete, Pedro, o Grande toma conhecimento das palavras do cartógrafo Guillaume Delisle, a propósito dos limites nordeste da Rússia: “on ne sait pas où se termine cette chaine de montagnes, et si elle ne va pas joindre quelque autre continent”. Todo o Ocidente quer saber se a Eurásia está ligada à América. O imperador conclui: é preciso explorar a costa norte e este do seu reino, as suas riquezas e os seus limites, que apenas se conhecem de lendas e relatos imprecisos. A dezasseis de Agosto de mil setecentos e vinte e oito, seis meses depois da sua morte, Vitus Bering tem finalmente uma resposta para lhe dar.



Aldeia abandonada de Naukan, no Cabo Dezhnev. © NOAA.


Estamos agora em mil setecentos e trinta e seis. O historiador alemão Gerhard Friedrich Müller descobre nos arquivos de Yakutsk os relatos das explorações de um tal de Semyen Dezhnev, falecido em mil seiscentos e setenta e três, às portas de Moscovo. Vinte anos depois, consegue, finalmente, publicar “Voyages et découvertes faites par les Russes le long des côtes de la Mer Glaciale & sur l'Océan Oriental, tant vers le Japon que vers l'Amérique. On y a joint l'Histoire du Fleuve Amur et des pays adjacents, depuis la conquête des Russes”, difundindo os resultados da expedição do cossaco Dezhnev: as terras do remoto Leste russo têm fim; entre a Eurásia e a América existe um estreito. O Estreito de Bering.
 
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