7.3.07
svalbard: a história repete-se.
Pyramiden em 2007.


Nada mais que vento e abandono. As horas do relógio são curtas para a largura dos dias, as noites às vezes não acabam e mais uma vez não há pessoas para que o tempo passe por elas. O calendário é inútil. A viagem até Pyramiden serve então para sentir o passado como o sangue que nos fugiu das veias. É uma viagem até ao último olhar da última pessoa que abandona a cidade, que se despede dela, que lhe fecha as portas, que a torna em mais um não-lugar do mundo. E ali se está, ao sabor do vento e do abandono, nessa cidade fantasma que até mil novecentos e noventa e oito albergou os mineiros russos da companhia Arktikugol, trinta e sete anos depois do mesmo último olhar ter dito o mesmo adeus à cidade mineira de Grumantbyen. Pyramiden: metáfora do vai-vem dos homens e das procuras, metáfora da história no arquipélago de Svalbard.

Willem Barents avistou as ilhas pela primeira vez a dezassete de Junho de mil quinhentos e noventa e seis, na sua viagem em busca da passagem nordeste. Chamou-lhes Spitsbergen, montes aguçados, pela forma bicuda das suas montanhas. Henry Hudson encontra-as no regresso da sua viagem à costa da Gronelândia em mil seiscentos e sete. Repara e refere que as águas de Spitsbergen estão repletas de baleias. Entusiasmados por uma fácil fortuna, chegam então às ilhas vagas e vagas de pescadores. Primeiro um inglês, Jonas Poole, que lá rumou em mil seiscentos e dez, na companhia de marinheiros do golfo da biscaia, mestres da técnica da caça à baleia. Depois, expedições holandesas, dinamarquesas, norueguesas e francesas, todas elas a reclamarem o monopólio daquela riqueza. Criam-se entrepostos. Um deles cresce e transforma-se numa próspera cidade de Verão: estamos em mil seiscentos e vinte e três, data de nascimento de Smeerenburg ou Blubbertown, a Cidade da Banha.



Smeerenburg / Blubbertown, circa 1629. [ampliação aqui].


Durante o longo dia polar, milhares de marinheiros holandeses habitam um pedaço de terra onde não faltam bares, refeitórios, armazéns, fornos comunitários, padarias, igrejas e até um forte; um pedaço de terra que tresanda a gordura de baleia queimada. Centenas de barcos ancoram no seu porto. Trazem baleias; levam óleos, combustíveis, espermacete, ossos, peles. Será assim durante vinte longos e prósperos anos, até a cidade se achar sem a fonte da sua riqueza: a pesca das baleias deixa as águas interiores e passa a ser feita em mar aberto; a gordura já não precisa de ser derretida em terra. Smeerenburg já não faz sentido. De cidade passa a armazém esquecido. Transforma-se no primeiro não-lugar de Svalbard, o arquipélago de onde ninguém é.



Vestígios dos fornos de Smeerenburg / Blubbertown em 2004 [© F. Steenhuisen].


Passam-se trinta verões até que a cidade fantasma volte a ser falada. Friederich Martens, autor de Spitsbergische oder Groenlandische Reise-Beschreibung gethan im Jahr 1671, descreve-a desolada, em ruínas, povoada por memórias e alguns ursos polares. Invernos e Verões, noites e dias, sucedem-se no esquecimento de Svalbard. De quando em vez é visitada pelos Pomors, camponeses russos que desconhecendo a ciência dos mares lá conseguem chegar em pequenos batéis chamados lodias. Durante anos, exploram o interior montanhoso da ilha de Spitsbergen. Caçam ursos, raposas, focas e morsas, alimentam-se da sua carne e negoceiam a sua pele. Há também a memória de Starashchin, o caçador, de quem se diz ter lá invernado trinta e nove vezes, quinze das quais consecutivas. E depois? Depois segue-se o resgate da terra à penumbra: fazem-se expedições científicas e mapas, dão-se nomes aos lugares e às coisas. Descobre-se que aquele género de papoila não existe em mais lado nenhum do mundo. Papaver dahlianum, a única. Questiona-se a origem da perfeição circular das pedras de Kvadehuksletta. Segue-se a primeira circum-navegação, feita por Elling Carlsen em 1863. A terra de ninguém é agora estudada por todos.



Longyearbien em 1906.


E assim parecia estar escrito o destino deste arquipélago, tal como Martin Conway o descreve, no início do século XX, em No Man’s Land, a History of Spitsbergen from its discovery in 1596 to the beginning of the Scientific Exploration of the Country. Até que, em mil novecentos e seis, o acaso descobre carvão debaixo do espesso gelo. Um sinal de riqueza: entusiasmados pela fortuna, chegam então a Spitsbergen vagas e vagas de exploradores e mineiros. John Longyear instala aí a Arctic Coal Company. Extrai carvão durante todo o Inverno, armazena-o e exporta-o durante o Verão. A permanência e a prosperidade regressam e as cidades renascem: funda-se Longyearbyen, a capital, a cidade de Longyear em homenagem ao novo grande explorador. É a casa de centenas de trabalhadores da Arctic Coal Company. Os suecos, mais a norte, erguem a cidade mineira de Sveagruva. Os ingleses Ny London. Os russos constroem Barentsburg, Grumantbyen e Pyramiden. Nasce Ny Ålesund, a cidade mais a Norte do mundo, centro de estudos e pesquisas científicas. O vai e vem recomeça, se é que alguma vez esteve parado. Em Svalbard, a história repete-se. Balança entre pólos opostos. Terra de todos, terra de ninguém. Ausência e presença. Futuro e memória. Lugar e não-lugar. A permanência é apenas paisagem.



Williem Barents, Martin Conway e John Longyear.



Longyearbien é hoje uma cidade próspera. Instalada na costa leste da ilha de Spitsbergen, como quase todas as cidades de Svalbard, tem a alma das terras remotas, distantes de todos os mundos, o encantamento dos lugares do círculo do silêncio. Numa montanha próxima está a ser construído um gigantesco e megalómano cofre para albergar todas as plantas da Terra. Quando o apocalipse chegar, a salvação de todos poderá estar na terra de ninguém.

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Longyearbyen em 2007.

 
posted by Eduardo Brito at 16:03 | Permalink |


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