15.3.07
o sol-rectângulo de gerrit de veer.
Miragem Polar: o Sol- Rectângulo.


Era a terceira vez que Barents tentava encontrar a passagem marítima para Nordeste, rumo ao extremo oriente. Corria o ano de mil quinhentos e noventa e seis e o Inverno escuro aprisionou o marinheiro e a sua tripulação na ilha de Nova Zembla. Ali foram forçados a invernar durante a fria longa noite do círculo do urso.
A vinte e quatro de Janeiro de mil quinhentos e noventa e sete, Gerrit de Veer, tripulante, sai em expedição chefiada por Jacob van Heemskerk até à costa sul da ilha. Faltam duas semanas para o sol nascer pela primeira vez naquele ano. Porém, a claridade já é considerável e permite o passeio. Ao chegar à praia, de Veer olha o horizonte, e avista um sol rectangular, um luminoso paralelo no fim do mar branco. No seu diário, escreve “O 24 de Janeiro estava de tempo limpo, com um vento oeste. Então eu e Jacob Hermskercke, e outro connosco, fomos à costa do lado sul de Noua Zembla, onde, contrariamente ao que esperávamos, eu consegui ver uma linha de sol; de imediato regressámos depressa a casa, para levar tão alegres notícias a William Barents e ao resto da nossa companhia. Mas William Barents, sendo um sábio e experimentado piloto, não acreditou nisso, estimando faltarem catorze dias para que o sol brilhe nessa parte do mundo, mas nós afirmámos o contrário e dissemos que vimos o sol.” *
E o mesmo aconteceu durante mais três dias. A vinte e cinco, vinte e seis e vinte e sete de Janeiro de mil quinhentos e noventa e sete, Gerrit de Veer volta a ver um sol rectangular a aparecer-lhe, durante escassos instantes, no horizonte. O fenómeno fascina-o. Descreve-o mais uma vez no seu diário de viagem, estranhando-lhe a forma e a posição. Tenta explicá-lo pela conjugação da Lua e Júpiter, faz cálculos astronómicos para tentar compreender o que via. E o que via era um sol rectângulo que, mesmo estando cinco graus abaixo do horizonte já se conseguia ver.
Estava assim observada e descrita pela primeira vez a miragem polar que ganhou o nome de Efeito de Nova Zembla: a anomalia óptica provocada pela refracção dos raios luminosos em camadas atmosféricas de temperaturas diferentes, que mostra um sol rectangular que não existe, uma miragem que acontece numa altura em que o sol esférico ainda não nasceu no horizonte. Passariam quinhentos e um anos até à comprovação definitiva deste efeito.


* Tradução livre de "The 24 of January it was faire cleare weather, with a west wind. Then I and Jacob Hermskercke, and another with vs, went to the sea-side on the south side of Noua Zembla, where, contrary to our expectation, I saw the edge of the sun; herewith we speedly home againe, to tell William Barents and the rest of our companion that joyfull newes. But William Barents, being a wise and well experienced pilot, would not believe it, esteeming it to be about fourteene daies too soone for the sunne to shin in that part of the world, but we earnestly affrirmed the contrary and said we had seene the sunne.", in The Three Voyages Of William Barents to the Arctic Regions (1594, 1595, 1596), de Gerrit de Veer, Ed. Elibron Classics, 2005 (fac simile da edição de 1876 da Hakluyt Society).
 
posted by Eduardo Brito at 23:01 | Permalink |


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