30.3.07
os cinco pólos norte.
Five Poles, fotografia de Tomamae Hokkaido, Japão, 2004.


Não há apenas um. São cinco. Cinco Pólos Norte. Cinco lugares diferentes, cinco sítios que não existem. Cinco pólos irrequietos.
O primeiro é o Pólo Norte Geográfico, o ponto imaginário situado a noventa graus, zero minutos Norte. É o ponto de partida e de chegada de todos os meridianos, o extremo norte do Planeta Terra. Este Pólo Norte Geográfico não é nenhum lugar físico: o pedaço de terra que lhe corresponde está a três mil e novecentos metros de profundidade. E o gelo de superfície está constantemente a mover-se, ao sabor da força das correntes. Assim, para se estar parado no Pólo Norte é necessário estar sempre em movimento.
Depois, há um Pólo Norte Magnético, o lugar onde se chega se se seguir o ponteiro de qualquer bússola, por força do magnetismo emanado do centro da Terra. A sua localização, sempre algures no Canadá árctico, não é fixa. Actualmente, fica a oitenta e dois graus e sete minutos Norte, cento e catorze graus e quatro minutos oeste.
Segue-se um Pólo Norte Geomagnético, que é o extremo norte do eixo da magnetoesfera, o campo magnético que envolve o planeta. Presentemente, fica situado a cerca de oitocentos quilómetros a leste do Pólo Norte Magnético, no lugar onde se ergue a aldeia de Qaanaq, na Gronelândia.
Há também um Pólo Norte de Inacessibilidade, o ponto do oceano Árctico mais distante de terra firme em todas as direcções. Fica a oitenta e quatro graus e três minutos Norte, cento e setenta e quatro graus e cinquenta e um minutos Oeste, a seiscentos e sessenta e um quilómetros do Pólo Norte e a mil e noventa e quatro quilómetros da costa mais próxima.
Por fim, existe um Pólo Norte Celestial, o ponto celestial alinhado com o extremo Norte do eixo da Terra. Fica no céu, no centro da esfera celeste, perto, muito perto da estrela Polaris.
 
posted by Eduardo Brito at 18:35 | Permalink | 0 comments
27.3.07
a imagem do círculo (2) - a fotografia de william bradford.
A última viagem de William Bradford ao Círculo do Urso ocorre em 1869. Para trás, e ao longo de oito anos, ficam precisamente oito viagens pela baía de Baffin e pelo estreito de Davis, périplos inspiradores das centenas de pinturas polares que Bradford criou. Porém, esta derradeira expedição criativa do artista é diferente de todas as outras. Acompanhado de George Critcherson e John L. Dunmore, dois assistentes-fotógrafos de Boston, EUA, William Bradford viaja pela costa oeste da Gronelândia para levar a cabo uma pioneira e ambiciosa expedição fotográfica. O resultado aparece quatro anos mais tarde, sob a forma de livro: The Arctic Regions, illustrated with photographs taken on an art expedition to Greenland, with descriptive narrative by the artist (Londres, 1873) colige cento e quarenta e uma das mais de trezentas fotografias tiradas pela equipa em negativos de vidro e impressas, originalmente, em albúmen. Aqui se recordam quinze dessas imagens.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 1 - Icebergs passing near Newfoundland coast.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 2 - Instantaneous View of Icebergs which, from their similarity and beauty, we named the Twins.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 3 - Cape Desolation.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 32 - The Glacier as seen forcing itself down over the land and into the waters of the Fiord. The Glacier seen at the left on the land is much finer rendered in the large upright view, no. 40.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 35 - The Steamer taking soundings in front of the Glacier. Captain Bartlett finding the Water 500 feet deep, making a solid Wall of Ice, to be seen if the Water was away, of between 775 and 800 feet high.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 37 - An extended view of a Section of the front of the Glacier, showing the wall, or frost, which was discharged or broken off.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 49 - Kunak Mountain in Davis Straits, with the Glacier on its summit. The finest view, showing its form and precipitous sides of 5,000 feet. There have been several attempts to reach the summit, but none of them have ever been successful.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 55 - The View shows the beautiful forms in varied shapes which the Berg assumed. On this berg we found a lake of fresh water, covering an acre in extent.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 59 - Instantaneous view of Icebergs off the coast, at mid-day.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 61 - Sandstone rock at the entrance of Karsut Fiord, rising out of the middle, and over 2,000 feet high. The Steamer on the left made fast to an Iceberg, on the top is a Lake of Water, from which we filled our tanks. This is over a mile and a half from the base of the rock, and shows its height with comparison with the Ship.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 70 - View of the house nearest the North Pole under the Midnight Sun, the home of Jansen, the interpreter and Dog-Driver of Dr. Hayes on the expedition of 1860-61.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 80 - The Midnight Sun in Melville Bay in August.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 82 - Near view of the polar bears.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 93 - Here we were surrounded by the wildest Scene possible to conceive. The largest Icebergs and heavy Hummock Ice seemed as if they enticed us amongst them to destroy us. While fast to one of the Icebergs a large Mass fell off, only Two Hundred Feet from our Stern, causing such a commotion in the Water that our Vessel rubbed her sides against the Iceberg in a very dangerous manner. We cast off and steamed to what we though a more safe Berg, and experienced while there a heavy Snowstorm.



Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
plate 101 - Section of an Immense Berg, which was nearly half a mile in length, and was grounded in over five hundred feet of water. This Berg shows the texture very finely.



William Bradford, John. L. Dunmore & George Critcherson
The Arctic Regions, illustrated with photographs taken on an art expedition to Greenland,
with descriptive narrative by the artist

© Clark Art Institute Library, Massachusets, EUA.
 
posted by Eduardo Brito at 09:45 | Permalink | 0 comments
26.3.07
a canção de são brandão.
Saint Brendan


Viajarás até ao fim do mar numa jangada. Terás a companhia de sessenta peregrinos. Buscarás o teu silêncio, o teu deus, a tua ilha abençoada. Levarás colchões de urze para dormires, vinho e conservas para te alimentares. É que sete anos estarás a navegar, São Brandão.
Pássaros falantes avisar-te-ão do frio que vais sentir. Contar-te-ão coisas sobre criaturas fantásticas que irás encontrar. Pisarás o solo de ilhas que derivam como tu. E verás o fundo do mar onde andas, São Brandão.
Chamarás palácios de cristal aos pedaços de gelo que flutuam nas águas. Atravessarás o interior do maior deles, daquele que te levou três dias a alcançar. Verás na sua transparência o olhar do teu deus, São Brandão.
Descansa, descansa agora que o tempo parou. Antes de adormeceres escutarás a voz de um anjo. Prometer-te-á que sim, São Brandão, alcançarás a tua ilha abençoada.


Saint Brendan (São Brandão) terá nascido em quatrocentos e oitenta e quatro no sudoeste da Irlanda. A sua viagem data de cerca de quinhentos e trinta e foi narrada, no século dez, no livro Navigatio Sancti Brendani Abbatis.
 
posted by Eduardo Brito at 11:35 | Permalink | 0 comments
23.3.07
fantásticos espaços do círculo: tule.
Photobucket - Video and Image Hosting
Tule na Carta Marina de Olaus Magnus, de 1537


Ilha do Atlântico Norte, situada a seis dias de navegação das ilhas Orkney. Tule é dez vezes maior que a Inglaterra, o seu solo é praticamente estéril e o ar é uma mistura de água do mar e oxigénio. Um fenómeno estranho acontece em Tule todos os anos. Na época do solstício de Verão, o sol nunca se põe, ficando no céu até à chegada do solstício de Inverno. Então, durante quarenta dias e quarenta noites permanece oculto. Os habitantes da ilha passam a larga noite a dormir, uma vez que nada mais se pode fazer nessa escuridão.
Entre as diversas tribos de Tule, é de mencionar a que chamam de escritifinos. A vida dos escritifinos parece-se com a dos animais. Como animais selvagens, perseguem e caçam as enormes criaturas que habitam nos seus bosques. Às vezes, no inverno, os escritifinos cobrem-se com as peles destas criaturas selvagens e extraem-lhes a medula dos ossos para alimentar os seus filhos, a quem jamais dão leite. Quando nasce um filho, pai e mãe põem-no numa bolsa de couro e atam-no a uma árvore, deixando-o com uma fatia de medula na boca enquanto vão à caça.
Existe outra tribo cujos membros veneram muitíssimos deuses e demónios. Afirmam que existe um deus ou um demónio em cada pedra, rio ou árvore e oferecem a estes seres sacrifícios humanos que consistem em degolar a vítima no altar, empalá-la numa árvore e lançá-la de um precipício.
Uma terceira tribo, mais simpática, é famosa pelo excelente hidromel que preparam com o abundante mel que produzem as suas abelhas.
(Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica, séc. I AC; Estrabão, Geografia, séc. I AC; Procópio, Guerra dos Godos, Séc IV)

in Breve Guía de Lugares Imaginarios, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi, Ed. Gran Bolsillo, Alianza Editorial, 1980, página 617.
 
posted by Eduardo Brito at 17:13 | Permalink | 0 comments
22.3.07
postais do círculo do urso - 2 - estreito de bering.

O Navio Discoverer no estreito de Bering. Fotografia do Comandante Richard Behn, tirada em 1979.
 
posted by Eduardo Brito at 02:02 | Permalink | 0 comments
21.3.07
a esperança de john davis.
John Davis


Desde finais do século quinze que o este e o oeste da Terra estavam divididos entre portugueses e espanhóis. Todas as nações europeias que quisessem chegar ao oriente por mar teriam apenas uma direcção segura a seguir: o Norte. É deste facto que parte grande parte da descoberta polar quinhentista.
Em mil quinhentos e oitenta e sete, o inglês John Davis regressa pela terceira vez ao Círculo do Urso, ao serviço do mercador Willam Sanderson. O objectivo é o de sempre: encontrar a Passagem Noroeste. Davis é um mestre dos mares: marinheiro exímio e diplomata sensível e tolerante, é também um cientista importante, inventor do quadrante que adoptou o seu nome. Mas depois de duas viagens sem resultados, Davis está condicionado por uma exigência de Sanderson: a expedição só acontecerá se apenas um dos três barcos da frota, o frágil Ellen, se aventurar em explorações: os outros, o Sunneshine e o Elizabeth ficarão à espera que o primeiro regresse e, enquanto esperam, ocupar-se-ão em pescar bacalhau. Davis aceita e lá parte, outra vez. Ao avistar o Cabo Farewell, que ele próprio assim nomeara um ano antes, Davis vira para Norte e inicia as suas explorações. A calmia do mar e a bondade do tempo encorajam o explorador a avançar até onde nunca antes ninguém houvera avançado. Sobe até aos setenta e dois graus e quarenta e três minutos Norte, onde ancora em protectora baía. Ao olhar para Setentrião, vê mar até perder de vista, livre de gelo. Este é o caminho, o caminho certo a seguir, sente. Terá dito chamarei a este lugar Sanderson’s Hope, a esperança de William Sanderson, a esperança de uma passagem Nordeste aqui tão perto. Mas o tempo arrefece demasiado rápido com o aproximar dos últimos dias de Agosto. E o Ellen é um barco pouco resistente. Davis tem que voltar, portanto. Depois de vários dias à espera de vento Norte, o Ellen iniciou a descida ao encontro do Sunneshine e do Elizabeth. Procurou-os por toda a costa de Labrador. Em vão. À sua espera, apenas o silêncio do mar. Estragado pelo gelo e pelos ventos fortes, o Ellen demoraria um mês a regressar a casa.
John Davis não se ficaria pelas suas três prodigiosas viagens exploratórias, não desistiria da esperança de Sanderson. Anos mais tarde, tenta o inverso, a passagem Sul e descobre as ilhas Falklands. Regressado a casa, em mil quinhentos e noventa e quatro, escreve The Seaman’s Secrets e The Worlde’s Hydrographical Descriptions, duas obras incontornáveis durante séculos. Nesta última, e a propósito das luzes do Círculo do Urso, afirmou que “v
nder the Pole is the place of greatest dignitie”. Em todo o mundo inteiro.
 
posted by Eduardo Brito at 01:56 | Permalink | 1 comments
15.3.07
o sol-rectângulo de gerrit de veer.
Miragem Polar: o Sol- Rectângulo.


Era a terceira vez que Barents tentava encontrar a passagem marítima para Nordeste, rumo ao extremo oriente. Corria o ano de mil quinhentos e noventa e seis e o Inverno escuro aprisionou o marinheiro e a sua tripulação na ilha de Nova Zembla. Ali foram forçados a invernar durante a fria longa noite do círculo do urso.
A vinte e quatro de Janeiro de mil quinhentos e noventa e sete, Gerrit de Veer, tripulante, sai em expedição chefiada por Jacob van Heemskerk até à costa sul da ilha. Faltam duas semanas para o sol nascer pela primeira vez naquele ano. Porém, a claridade já é considerável e permite o passeio. Ao chegar à praia, de Veer olha o horizonte, e avista um sol rectangular, um luminoso paralelo no fim do mar branco. No seu diário, escreve “O 24 de Janeiro estava de tempo limpo, com um vento oeste. Então eu e Jacob Hermskercke, e outro connosco, fomos à costa do lado sul de Noua Zembla, onde, contrariamente ao que esperávamos, eu consegui ver uma linha de sol; de imediato regressámos depressa a casa, para levar tão alegres notícias a William Barents e ao resto da nossa companhia. Mas William Barents, sendo um sábio e experimentado piloto, não acreditou nisso, estimando faltarem catorze dias para que o sol brilhe nessa parte do mundo, mas nós afirmámos o contrário e dissemos que vimos o sol.” *
E o mesmo aconteceu durante mais três dias. A vinte e cinco, vinte e seis e vinte e sete de Janeiro de mil quinhentos e noventa e sete, Gerrit de Veer volta a ver um sol rectangular a aparecer-lhe, durante escassos instantes, no horizonte. O fenómeno fascina-o. Descreve-o mais uma vez no seu diário de viagem, estranhando-lhe a forma e a posição. Tenta explicá-lo pela conjugação da Lua e Júpiter, faz cálculos astronómicos para tentar compreender o que via. E o que via era um sol rectângulo que, mesmo estando cinco graus abaixo do horizonte já se conseguia ver.
Estava assim observada e descrita pela primeira vez a miragem polar que ganhou o nome de Efeito de Nova Zembla: a anomalia óptica provocada pela refracção dos raios luminosos em camadas atmosféricas de temperaturas diferentes, que mostra um sol rectangular que não existe, uma miragem que acontece numa altura em que o sol esférico ainda não nasceu no horizonte. Passariam quinhentos e um anos até à comprovação definitiva deste efeito.


* Tradução livre de "The 24 of January it was faire cleare weather, with a west wind. Then I and Jacob Hermskercke, and another with vs, went to the sea-side on the south side of Noua Zembla, where, contrary to our expectation, I saw the edge of the sun; herewith we speedly home againe, to tell William Barents and the rest of our companion that joyfull newes. But William Barents, being a wise and well experienced pilot, would not believe it, esteeming it to be about fourteene daies too soone for the sunne to shin in that part of the world, but we earnestly affrirmed the contrary and said we had seene the sunne.", in The Three Voyages Of William Barents to the Arctic Regions (1594, 1595, 1596), de Gerrit de Veer, Ed. Elibron Classics, 2005 (fac simile da edição de 1876 da Hakluyt Society).
 
posted by Eduardo Brito at 23:01 | Permalink | 0 comments
13.3.07
fantásticos espaços do círculo: ilhas do demónio.
Photobucket - Video and Image Hosting
Uma das Ilhas do Demónio no mapa de Gastaldi de 1565.


Situadas na região da Terra Nova e Labrador, foram desenhadas com rigor por Mercator e Ortelius no século XVI, tendo desaparecido, misteriosamente, da cartografia mundial em meados do século seguinte. Habitadas por monstros, animais selvagens e demónios que atacavam os navios que ali atracavam ou os tripulantes que se aventuravam a ir a terra. Reza a lenda que os ruídos das bestas eram audíveis a largas milhas das suas costas. As Ilhas do Demónio aparecem referidas no Heptamerón de Margarida de Navarra, escrito entre 1540 e 1549, no seu sexagésimo sétimo capítulo.
 
posted by Eduardo Brito at 00:55 | Permalink | 0 comments
11.3.07
ciclo de filmes do círculo: los amantes del círculo polar.
Photobucket - Video and Image Hosting
Los Amantes Del Círculo Polar: Julio Medem, Espanha, 1998, 158 minutos.


Ana: Voy a quedarme aquí todo el tiempo que haga falta. Estoy esperando la casualidad de mi vida, la más grande, y eso que las he tenido de muchas clases. Sí, podría contar mi vida uniendo casualidades.

Otto: Es bueno que las vidas tengan varios círculos, pero la mía, mi vida, sólo ha dado la vuelta una vez y no del todo. Falta lo más importante...
 
posted by Eduardo Brito at 10:35 | Permalink | 0 comments
7.3.07
svalbard: a história repete-se.
Pyramiden em 2007.


Nada mais que vento e abandono. As horas do relógio são curtas para a largura dos dias, as noites às vezes não acabam e mais uma vez não há pessoas para que o tempo passe por elas. O calendário é inútil. A viagem até Pyramiden serve então para sentir o passado como o sangue que nos fugiu das veias. É uma viagem até ao último olhar da última pessoa que abandona a cidade, que se despede dela, que lhe fecha as portas, que a torna em mais um não-lugar do mundo. E ali se está, ao sabor do vento e do abandono, nessa cidade fantasma que até mil novecentos e noventa e oito albergou os mineiros russos da companhia Arktikugol, trinta e sete anos depois do mesmo último olhar ter dito o mesmo adeus à cidade mineira de Grumantbyen. Pyramiden: metáfora do vai-vem dos homens e das procuras, metáfora da história no arquipélago de Svalbard.

Willem Barents avistou as ilhas pela primeira vez a dezassete de Junho de mil quinhentos e noventa e seis, na sua viagem em busca da passagem nordeste. Chamou-lhes Spitsbergen, montes aguçados, pela forma bicuda das suas montanhas. Henry Hudson encontra-as no regresso da sua viagem à costa da Gronelândia em mil seiscentos e sete. Repara e refere que as águas de Spitsbergen estão repletas de baleias. Entusiasmados por uma fácil fortuna, chegam então às ilhas vagas e vagas de pescadores. Primeiro um inglês, Jonas Poole, que lá rumou em mil seiscentos e dez, na companhia de marinheiros do golfo da biscaia, mestres da técnica da caça à baleia. Depois, expedições holandesas, dinamarquesas, norueguesas e francesas, todas elas a reclamarem o monopólio daquela riqueza. Criam-se entrepostos. Um deles cresce e transforma-se numa próspera cidade de Verão: estamos em mil seiscentos e vinte e três, data de nascimento de Smeerenburg ou Blubbertown, a Cidade da Banha.



Smeerenburg / Blubbertown, circa 1629. [ampliação aqui].


Durante o longo dia polar, milhares de marinheiros holandeses habitam um pedaço de terra onde não faltam bares, refeitórios, armazéns, fornos comunitários, padarias, igrejas e até um forte; um pedaço de terra que tresanda a gordura de baleia queimada. Centenas de barcos ancoram no seu porto. Trazem baleias; levam óleos, combustíveis, espermacete, ossos, peles. Será assim durante vinte longos e prósperos anos, até a cidade se achar sem a fonte da sua riqueza: a pesca das baleias deixa as águas interiores e passa a ser feita em mar aberto; a gordura já não precisa de ser derretida em terra. Smeerenburg já não faz sentido. De cidade passa a armazém esquecido. Transforma-se no primeiro não-lugar de Svalbard, o arquipélago de onde ninguém é.



Vestígios dos fornos de Smeerenburg / Blubbertown em 2004 [© F. Steenhuisen].


Passam-se trinta verões até que a cidade fantasma volte a ser falada. Friederich Martens, autor de Spitsbergische oder Groenlandische Reise-Beschreibung gethan im Jahr 1671, descreve-a desolada, em ruínas, povoada por memórias e alguns ursos polares. Invernos e Verões, noites e dias, sucedem-se no esquecimento de Svalbard. De quando em vez é visitada pelos Pomors, camponeses russos que desconhecendo a ciência dos mares lá conseguem chegar em pequenos batéis chamados lodias. Durante anos, exploram o interior montanhoso da ilha de Spitsbergen. Caçam ursos, raposas, focas e morsas, alimentam-se da sua carne e negoceiam a sua pele. Há também a memória de Starashchin, o caçador, de quem se diz ter lá invernado trinta e nove vezes, quinze das quais consecutivas. E depois? Depois segue-se o resgate da terra à penumbra: fazem-se expedições científicas e mapas, dão-se nomes aos lugares e às coisas. Descobre-se que aquele género de papoila não existe em mais lado nenhum do mundo. Papaver dahlianum, a única. Questiona-se a origem da perfeição circular das pedras de Kvadehuksletta. Segue-se a primeira circum-navegação, feita por Elling Carlsen em 1863. A terra de ninguém é agora estudada por todos.



Longyearbien em 1906.


E assim parecia estar escrito o destino deste arquipélago, tal como Martin Conway o descreve, no início do século XX, em No Man’s Land, a History of Spitsbergen from its discovery in 1596 to the beginning of the Scientific Exploration of the Country. Até que, em mil novecentos e seis, o acaso descobre carvão debaixo do espesso gelo. Um sinal de riqueza: entusiasmados pela fortuna, chegam então a Spitsbergen vagas e vagas de exploradores e mineiros. John Longyear instala aí a Arctic Coal Company. Extrai carvão durante todo o Inverno, armazena-o e exporta-o durante o Verão. A permanência e a prosperidade regressam e as cidades renascem: funda-se Longyearbyen, a capital, a cidade de Longyear em homenagem ao novo grande explorador. É a casa de centenas de trabalhadores da Arctic Coal Company. Os suecos, mais a norte, erguem a cidade mineira de Sveagruva. Os ingleses Ny London. Os russos constroem Barentsburg, Grumantbyen e Pyramiden. Nasce Ny Ålesund, a cidade mais a Norte do mundo, centro de estudos e pesquisas científicas. O vai e vem recomeça, se é que alguma vez esteve parado. Em Svalbard, a história repete-se. Balança entre pólos opostos. Terra de todos, terra de ninguém. Ausência e presença. Futuro e memória. Lugar e não-lugar. A permanência é apenas paisagem.



Williem Barents, Martin Conway e John Longyear.



Longyearbien é hoje uma cidade próspera. Instalada na costa leste da ilha de Spitsbergen, como quase todas as cidades de Svalbard, tem a alma das terras remotas, distantes de todos os mundos, o encantamento dos lugares do círculo do silêncio. Numa montanha próxima está a ser construído um gigantesco e megalómano cofre para albergar todas as plantas da Terra. Quando o apocalipse chegar, a salvação de todos poderá estar na terra de ninguém.

Photobucket - Video and Image Hosting

Longyearbyen em 2007.

 
posted by Eduardo Brito at 16:03 | Permalink | 0 comments
6.3.07
fantásticos espaços do círculo: hiperbórea.
Photobucket - Video and Image Hosting
As regiões Hiperbóreas, num mapa de Ruysch, de 1507.


Região de terras aprazíveis e férteis, situada, provavelmente, no norte da Escócia. Altos penhascos, com formas femininas, flanqueiam a entrada dos estreitos que conduzem ao Mar Hiperbóreo. Recomenda-se ao viajante que não chegue a Hiperbórea de noite porque a escuridão é sinónimo de risco de vida, pois destrói os barcos que navegam pelas imediações.
O sol aparece uma vez por ano, a meio do Verão, e só se põe uma única vez, em meados do Inverno. Os habitantes podam de manhã, cultivam ao meio-dia, colhem os frutos das árvores ao pôr-do-sol e recolhem-se aos seus abrigos à noite. Oferecem os primeiros frutos a Apolo. Em Hiperbórea não se conhece a tristeza. Os seus habitantes elegem o momento de morrer e celebram a morte com banquetes e regozijo, depois dos quais põem fim às suas vidas lançando-se ao mar desde o alto de um rochedo.
(Plínio, O Velho, Historia Natural, Séc. I)


in Breve Guía de Lugares Imaginarios, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi, Ed. Gran Bolsillo, Alianza Editorial, 1980, página 256.
 
posted by Eduardo Brito at 17:35 | Permalink | 0 comments
4.3.07
ciclo de filmes do círculo: nanook of the north.
Photobucket - Video and Image Hosting
Nanook Of the North: Robert J. Flaherty, EUA / França, 1922, 73 minutos.


1h13: The shrill piping of the wind, the rasp and hiss of driving snow, the mournful wolf howls of Nanook master dog tipify the melancholy spirit of the North.
 
posted by Eduardo Brito at 14:44 | Permalink | 0 comments
eXTReMe Tracker