22.2.07
o navio casa e a jangada de gelo: a expedição polaris de charles francis hall
O nome do navio era o mesmo da estrela que brilha imprecisamente sobre o lugar que o americano Charles Francis Hall quis alcançar em mil oitocentos e setenta e um. Polaris, portanto. Do nevoeiro das lendas e do pó dos mapas vinham sinais de um mar aberto, livre de gelo, a rodear o Pólo Norte. Um imenso lago salgado em forma de “o” à espera do primeiro olhar do Homem. O líquido Pólo, à espera do Polaris. Para lá chegar, bastava atravessar a baía de Baffin, o estreito de Smith, o canal de Robeson e novecentos quilómetros de mar gelado. Nada que amedrontasse o capitão.



Charles Francis Hall


Charles Francis Hall não era novo nestas andanças. Tinha a experiência de duas longas viagens até às terras dos Inuits. Na primeira delas conhecera Ebierlung e a mulher, Tookolito, que passariam a acompanhá-lo desde então. Para a viagem do Polaris, Hall rodeou-se de uma equipa ambiciosa. Ao seu lado estava a experiência de gelo de Sidney Buddington. O rigor científico de Emil Bessels. As intermináveis horas de mar de George Tyson. Uma corja de marinheiros mercenários. E, claro, a amizade da família de Ebierlung e a sabedoria de Hans Hendrik.



O navio Polaris in Wonders Of The World: A History Of All The Researches And Discoveries In The Frozen Regions Of The North, de Sargent, Epes and Cunnington, William.


Mas cedo começaram as divergências sobre o rumo a seguir pelo Polaris. Mesmo tendo metade da tripulação contra si, Hall arriscou e subiu. Chegou à costa setentrional da Gronelândia. Até aos oitenta e dois graus e onze minutos Norte, latitude nunca antes alcançada por nenhum ser humano naquelas águas. Mas o vento e o gelo rapidamente o fizeram descer um pouco para sul. No abrigo de Thank God Harbour, o Polaris invernou, protegido que estava por um iceberg de cento e trinta e sete metros de largura, noventa e um de comprimento e vinte de altura, que logo ganhou o nome de Providence Berg. O calendário assinalava dez de Setembro.

Um mês e meio depois, Charles Francis Hall começava a perder forças. No seu diário, escrevia estranhar a constante fraqueza que se ia apoderando de si. Depois de regressar de uma jornada de exploração a Brevoort, na Baía de Newman, sentiu-se mal. Muito mal. Durante uma semana, delirou. Vomitou. Voltou a delirar. Acusou Emil Bessels, o físico da expedição, de o estar a envenenar. A oito de Novembro, o navio Polaris perdia o seu capitão. Chorado pelos seus fiéis amigos Ebierlung e Tookolito, foi sepultado num lugar que tomou o nome de Hall’s Rest.



Smith Sound, October 15, 1872. In Hall's Narrative of the North Polar Expedition.


Buddington assumiu a chefia da expedição e decidiu regressar a casa. Sem Hall, a expedição já não fazia sentido. E já não havia vontade em continuar para Norte. Faltava apenas que o espesso gelo derretesse e deixasse o Polaris navegar, o que acabou por acontecer em Agosto de mil oitocentos e setenta e dois. Finalmente, a lenta marcha rumo a casa, rumo ao Sul. Porém, a chegada do Outono desse ano foi violenta. A quinze de Outubro, a tempestade ataca um Polaris já fragilizado. Os ventos fustigam-no sem parar. E o gelo que o envolve ameaça esmagá-lo. A tripulação começa a retirar do navio os mantimentos, os cobertores, as roupas, os kayaks e as tendas. Tudo está agora num chão de gelo. E o chão do gelo parte-se. Parte-se mil vezes em mil bocados, deixando dezanove tripulantes a flutuar num tapete branco, deixando dezanove tripulantes a olhar o Polaris a desaparecer no horizonte, sem lhes responder aos acenos. Na imensidão do mar fica George Tyson na companhia de sete marinheiros, um cozinheiro e as das famílas de Ebierlung e Hansen. Três dias depois começava a longa noite polar.



O lugar da Casa Polaris, fotografado em 1881, no âmbito do primeiro Ano Internacional Polar.


É um Polaris partido pela força do gelo que inverna em Port Foulke. A tripulação transforma-o numa casa, num perfeito albergue para si e para a comunidade de esquimós Etah. Durante meses, cento e cinquenta pessoas convivem ali, na Casa Polaris. Constroem-se barcos, aprovisionam-se mantimentos para que a viagem de regresso a casa comece mal haja mar para navegar. Os tripulantes do Polaris fazem-se ao mar em Junho. Pouco depois, são resgatados pelo baleeiro Ravenscraig. Durante a viagem de regresso, ficam a saber que dezanove pessoas sobreviveram um Inverno inteiro numa jangada de gelo, encontrados que foram sãos e salvos na costa da Terra Nova, a trinta de Abril de mil oitocentos e setenta e três. Dois mil e quatrocentos quilómetros a sul do lugar onde ficaram entregues à sua sorte.



Emil Bessels


O inquérito à expedição Polaris concluiu que a morte de Hall foi causada por uma apoplexia. Concluiu que se não fosse a sabedoria e a experiência de Henrik Hansen, de Tookolito e de Ebierlung, a tripulação que ficou à deriva não teria sobrevivido.
Em mil novecentos e sessenta e nove, o corpo de Hall foi exumado. As análises feitas a amostras de tecido, cabelo e ossos concluíram que Charles Francis Hall foi envenenado com arsénico, tomado em grandes quantidades nas suas duas últimas semanas de vida.
 
posted by Eduardo Brito at 18:43 | Permalink |


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